Back to Top

image

Hoje sonhei que morava num apartamento grande, antigo, com cara de abandonado, com outra pessoa - que eu acho que era um homem, mas com quem eu não conseguia me comunicar verbalmente.

Ao longo do sonho fui me dando conta de que vivíamos como selvagens ali dentro. Fora alguma mobília e objetos que usávamos - basicamente sofás e livros - vivíamos como selvagens por que o apartamento vivia fechado e nós tínhamos que caçar ou coletar o que comer num quarto pequeno que parecia uma selva, cheio de árvores enormes, uma camada fofa de terra fértil coberta de folhas no chão, vários animais, até sons de floresta. 

Logo depois que me dei conta disso, entrei no quarto sozinha e ele estava completamente vazio. Percebi que era minha vez de recriar tudo aquilo de novo. Coloquei uns vasos de plantas altas no quarto, mas o que tornaria possível que aquilo virasse uma floresta de verdade, e não só um quarto cheio de vasos de plantas, eram duas coisas: eu tinha que deixar a janela bem aberta e jogar uma camadinha fina de terra no chão. Fiz isso e fiquei ali um tempo, ajeitando as plantas, na esperança de poder ver já alguma mudança. E a partir daí, a cada vez que eu parava de olhar pras folhas coloridas das mudas e olhava pro quarto, tinha uma coisa a mais: primeiro parecia ter mais terra no chão, e ela era um pouco mais úmida, mais fofa; depois as arvorezinhas pareciam maiores, o conjunto parecia mais denso, era mais quente. Depois vieram uns insetos que eu não conhecia. “Mas só insetos?” eu pensei. E quando olhei pro chão tinha vindo um passarinho. 

Achei melhor sair dali e deixar as coisas acontecerem. Logo que eu saí, voltam pra casa minha mãe e minha irmã pequena, como se nada tivesse acontecido. Também não consigo me comunicar com elas - tenho a impressão de que o homem que morava comigo desaparece também. Elas não notam nada estranho, apesar do meu silêncio. Fico preocupada pensando que vou ser obrigada a me desfazer da minha florestinha que tá recém começando a crescer. 

(entro no tumblr pra escrever isso e a primeira imagem que me aparece é essa)

Estranho como a gente acaba adotando marcos arbitrários pra definir nossas relações. Ficar, por exemplo: se diz que duas pessoas ficaram quando se beijaram na boca. Isso define alguma coisa. Mas posso conversar muito, fazer carinho, beijar no rosto na testa no pescoço, cheirar, abraçar longamente uma pessoa que eu desejo e que também me deseja: se não nos beijarmos especificamente na boca, e de determinado jeito, não se diz que ficamos. E o contrário também acontece: duas pessoas podem não saber o nome uma da outra, dançar juntas casualmente numa festa, se beijar na boca e se separarem rápido: nesse caso pode-se dizer (é aceito que se diga) que elas “ficaram” - o nome pode parecer bobo mas de qualquer forma serve pra estabelecer um tipo de ligação. Por isso digo que é um marco. Não haverá nome pra(s) relação(ões) que eu construo quando converso muito, faço carinho, beijo no rosto na testa no pescoço, cheiro e abraço longamente alguém que eu desejo e que também me deseja se eu não a beijar especificamente na boca, e de determinado jeito.

Pra que isso, será?
Por que essa referência e não outra, ou outras?

A primeira coisa que eu penso pra começar a responder é: precisamos de um limite pra nos ajudar a definir o grau de intimidade entre as pessoas, e portanto o tipo de relação entre elas - isso, claro, supondo que as relações precisam de definição (e eu não concordo com isso necessariamente).

Mas eu acabei de reconhecer que duas pessoas (ou mais, quantas quiserem) podem se beijar na boca - e, pra todos os efeitos, terem todo tipo de intimidade física que quiserem - e isso não quer dizer absolutamente nada sobre o resto da relação entre elas, ou sequer se existe relação pra além do envolvimento físico. 

Então eu não tenho resposta, só tenho a pergunta: por que a gente constrói as nossas relações - e julga as relações dos outros - com base nessas fronteiras?